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Critica: Revolutionary Road (2008)

March 4, 2009 · Leave a Comment

“Se ser louco significa viver a vida, não me importo de ser louca.” (April Wheeler – Kate Winslet)

De Sam Mendes (American Beauty, Road to Perdition) , Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Michael Shannon, Kathy Bates)
Argumento: Justin Haythe, baseado no romance Revolutionary Road de Richard Yates
Musica de Thomas Newman
Fotografia: Roger Deakins (The Village, The Reader)

Intenso. Perturbante. Chocante. Simples. São as primeiras palavras de que me lembro ao ver este exercício de cinema que é Revolutionary Road. Não é um filme fácil de ver, muito menos agradável. É sim uma verdadeira experiência filosófica, já que retrata em toda a sua simplicidade o âmago dos problemas por trás do nosso modo de vida. A necessidade extrema de silêncio que passa por todo o filme, é o resultado do crescendo de tensão em que as personagens centrais vivem. A intensidade dramática é tal que as ultimas sequências da narrativa parecem simplesmente decorrer em velocidade automática, com a demonstração absoluta de resignação por um lado, e o desespero da ausência de esperança pelo outro. De clímax em clímax vamos progressivamente entendendo a importância do silêncio, as regras do jogo. Esta rua revolucionária não leva afinal a lado nenhum e essa é a força de mais um excelente projecto de Sam Mendes. Revolutionary Road é um retrato intenso do subúrbio Norte-Americano, da classe média da América dos anos 50, focando essencialmente o percurso dos Wheeler, Frank (DiCaprio) e April (Winslet), nos seus esforços de tentar viver numa sociedade claustrofóbica como seria aquela. Apoiado no argumento brilhantemente adaptado por Justin Haythe a partir do romance homónimo de Richard Yates (2008), Sam Mendes consegue uma vez mais concentrar a nossa atenção na representação, construindo o filme em torno de uma realização suave, atenta ao detalhe, com uma filmagem que procura deixar em contraste o individuo com o seu meio circundante – note-se os grandes planos da rua privilegiados por Mendes, imediatamente seguidos pela intensidade das interpretações de Winslet e DiCaprio. Tudo isto conseguido através da simples arte de contar uma boa história. Revolutionary Road acaba por funcionar muito bem. Não sendo original (Far From Heaven, de Todd Haynes, 2002, é um bom exemplo), o filme joga um pouco com a personna cinematográfica criada por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio em Titanic (James Cameron, 1998), levando-nos naturalmente como que a fazer uma comparação entre o romantismo fantasioso reproduzido no blockbuster de Cameron e a crueza da realidade apresentada aqui. Fica-nos na retina a ideia de que o próprio mundo de 1998 é muito diferente daquele que hoje sentimos. Não é de todo irrelevante o facto de a acção decorrer no Connecticut, o paradigma absoluto do subúrbio Norte-Americano. Situando-se precisamente na área metropolitana de Nova Iorque, é uma das zonas mais fustigadas pela actual crise económica, já que, outrora uma das regiões mais abastadas do país, será agora a região da América onde o número de desalojados devido à crise do subprime é o mais elevado. Fica reforçada a ideia do pesadelo em que o sonho americano (uma construção do cinema de Hollywood) parece ter caído. Com esse jogo interpretativo e com o formalismo da realização de Mendes, o palco fica completamente reservado para Winslet e DiCaprio, sendo a fluidez da narrativa conseguida pela realização fortalecida pelo brilhantismo das interpretações. Ao retrato sociológico junta-se precisamente o retrato de uma vida a dois, das dificuldades e das cedências que definem um casamento. Winslet e DiCaprio trazem para Revolutionary Road a maturidade que já foram construindo nos seus esforços contínuos de se afastarem da imagem plástica de Titanic, aqui e ali recuperando a paixão e os extremos de sentimentos que aquele mega-sucesso promoveu e ao mesmo tempo ajudando a teorizar sobre o conceito de amor na sociedade ocidental. Winslet consegue transmitir com o olhar, com os maneirismos, com a entrega articulada do texto, o desespero, a claustrofobia e o enclausuramento de uma vida rotineira, sem emoção e a dose de sentimento que a sua personagem sempre ambicionou. DiCaprio é o complemento desse sofrimento, dando-nos a imagem da frustração de uma sociedade que caminha para o conformismo, para o comodismo de uma casa e uma vida confortável. Ambos são o reflexo da sociedade ocidental alimentada pelo espelho constante que a América procurou fazer reflectir. No final fica tão só o silêncio. A necessidade absoluta de silêncio num mundo que, cada vez mais, vive da norma, da ditadura da normalidade, em que a comunicação entre seres humanos vive sobretudo de máscaras que se adaptam a todas as situações. É duro e, nesse aspecto, Revolutionary Road é mais um murro no estômago da sociedade contemporânea que, ao mesmo tempo, nos permite sonhar com uma outra vida e, ironicamente, castrar as expectativas devido ao conjunto de normas que subliminarmente nos impõe. Para a posteridade fica a última imagem do filme: silêncio.

Classificação: 5 estrelas em 5

Categories: Cinema · Crítica Cinema · Sam Mendes
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