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Apresentação Critica2: Casablanca (1942)

April 6, 2008 · Leave a Comment

Realizado por Michael Curtiz,

Com Humphrey Bogard, Ingrid Bergman, Paul Henreid

Argumento inspirado numa peça original de Murray Burnett e Joan Alison (“Everybody Comes to Rick’s”), escrito por Julius, Philip Epstein e Howard Koch

Não é que Casablanca seja um grande filme. Visualmente não tem muito que o distinga de outros filmes do seu tempo. Michael Curtiz não é, de todo, um grande realizador… no entanto, o facto parece ser que o premiado Casablanca é um dos filmes mais citados, mais reconhecidos, mais repostos em televisão de sempre, transformando-se indiscutivelmente num dos exemplos paradigmáticos de uma Hollywood especial e de um conjunto de valores por ela promovidos.

Na verdade, em 1942, altura em que o filme estreou, ninguém sequer sonharia que teria o sucesso estrondoso que teve, e ainda tem. Apesar de envolver na sua produção argumentistas e produtores de renome, bem como estrelas em ascensão (o imbatível Bogard e a diva sueca Ingrid Bergman), todos acreditavam que aquele seria “apenas” mais um produto da indústria, apenas mais um filme da cadeia de produção. Com um argumento dramaticamente superficial, uma narrativa linear, apostando numa trama já conhecida e em fórmulas de sucesso, do ponto de vista estético, Casablanca não acrescenta de facto muito. Tendo conhecido diversos argumentos, diversas versões – a determinada altura nas filmagens não se sabia como seria o final sequer –, Casablanca tem na sua base uma história de amor não consumado.

Filmado durante a Segunda Guerra Mundial, o filme de Michael Curtiz tem na figura de Rick Blaine (Humphrey Bogard) o seu principal destaque. Americano, homem rude e muito moldado à personna cinematográfica de Bogard, nem bonito nem feio, nada agradável, aparentemente afastado de tudo e de todos, Rick é o arquétipo perfeito do anti-herói que viria a ser retomado no “film-noir” ao longo dessa mesma década de 1940 e anos 50. A acção decorre na cidade de Casablanca, Marrocos, então sob domínio francês. A cidade era na altura um dos pontos fulcrais na rota de fuga ao avanço Nazi na Europa, já que os fugitivos do regime de Hitler podiam ai encontrar um livre-trânsito que os levará até Lisboa, onde poderiam embarcar rumo às Américas. Rick é o dono de um popular café em Casablanca, “The Rick’s Café Américain”, que funciona como ponto de encontro para as diversas culturas que andavam por Marrocos – franceses, americanos, ingleses, alemães, etc. A carga dramática do filme aumenta quando ao café chegam Victor Laszlo (Paul Henreid), um líder da resistência Checa, e Ilsa Lund (Ingrid Bergman), sua mulher, foragidos que pretendem obter o passaporte para Lisboa. Perseguido pelos nazis, o casal tenta a todo o custo obter o livre-trânsito. Tudo se complica quando Rick percebe que Ilsa fora sua amante em Paris, mesmo antes da guerra. Rick vê-se assim confrontado com um dilema: envolver-se com o casal, esquecendo a tortura que é esta reaproximação com uma mulher que tanto amou, e ajudá-los, ou manter-se neutral como até aqui?

Progressivamente, e de forma mais ou menos consistente, Casablanca vai respondendo a essa e outras questões, reconstruindo capazmente todo o enredo em torno de um triângulo amoroso que dá algum sal e pimenta a uma narrativa que se pretende assumir como retrato histórico ao mesmo tempo. Bogard, Bergman e Paul Henreid formam esse triângulo e constroem as suas personagens de forma consistente, dando ao filme muito do valor que ainda hoje terá. Para a memória de qualquer amante de cinema ficam certamente diversos momentos em que a exaltação romântica é determinante, episódios com belíssimos diálogos e considerável intensidade dramática. As interpretações seguram, de certa forma, todo o filme, já que o elevam a um plano mais elevado, mas a banda sonora também contribui decisivamente para a imortalização de todo aquele ambiente. Composta por Max Steiner (autor da banda sonora de Gone With the Wind) – curiosamente a música que perdurou, “Play it again, Sam”, já existia, tendo sido composta por Herman Hupfeld –, a banda sonora ajuda a criar o microcosmo que é afinal o café americano de Rick.

Ainda assim, e apesar de ser segundo vários críticos um dos filmes mais citados em listas de melhores de sempre, Casablanca não é brilhante, principalmente se considerado em paralelo com o momento específico que Hollywood atravessava. De certa forma, o filme não é propriamente “de” Michael Curtiz. É certo que Curtiz assina a produção, mas na prática este não é mais do que um produto de estúdio. O realizador de ascendência Húngara seria apenas mais um dos muitos realizadores com contrato fixo com a Warner Brothers. O espaço para a criatividade de um realizador a contrato – como eram quase todos no momento – era diminuto, pelo que aquilo que fica é na verdade a marca do estúdio e do sistema de produção que tudo isso implica. O trabalho do realizador estaria limitado por todo um conjunto de normas de produção, passando principalmente por ideias pré-concebidas daquilo que deveria ser o filme, tanto ao nível da realização, como do próprio argumento ou representação por parte do elenco. Casablanca é muito mais um produto do que uma obra de arte.

De facto, quando pensamos na Idade de Ouro (anos 1930, 1940 e inicio da década de 1950) do “studio-system” de Hollywood, pensamos naturalmente em grandes equipas de produção, em “sets” imensos e, claro, total controlo por parte do estúdio. Michael Curtiz é o exemplo máximo daquilo que seria um produto da “casa”, ao ponto de ainda hoje serem poucas as pessoas que reconhecem o realizador de Casablanca. Isto não invalida que Curtiz tenha feito mais de 100 filmes e tenha tido uma carreira repleta de sucesso nos EUA. Porém, vem confirmar a apetência daquela Hollywood para o uso de fórmulas, para a produção em série e pela aposta num “star-system” para a divulgação dos seus produtos. Considerando tudo isto, no entanto, poder-se-á concluir que Casablanca é sim a reunião de tudo o que a Hollywood clássica poderia ter feito, assumindo-se como um documento histórico da indústria de então. O filme acaba por apresentar tudo aquilo que caracterizaria a produção cinematográfica, a forma como as películas eram produzidas, realizadas, promovidas.

O poder de Casablanca reside principalmente no subtexto que engenhosamente é construído em torno de todas aquelas personagens. Muitas interpretações e análises do filme foram sendo apresentadas, mas, dado o contexto histórico, aquela que parece mais evidente tem que ver principalmente com a posição americana relativamente à participação no conflito mundial que dava então os primeiros passos. Em larga medida, o café de Rick – e a própria figura de Rick Blaine – pode ser entendido enquanto metáfora da América e, mais concretamente, da reacção inicial de neutralidade do país perante o avanço de Hitler. Os EUA, através do seu presidente Franklin D. Roosevelt, cedo declararam neutralidade perante o conflito (pro-aliança claro está) e contra todas as expectativas não declararam guerra ao eixo fascista. Apesar de os europeus desejarem a entrada dos EUA na guerra, tal não aconteceu até Junho de 1942, altura em que os americanos declaram guerra às potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Ora, em Casablanca toda esta gestão diplomática de forças aparece retratada. De forma subliminar é certo, mas aquele característico café americano congrega a diplomacia e jogo de interesses que marcou a primeira fase da Segunda Guerra Mundial. Rick, com a sua posição inicial de neutralidade, surge como espectador, mas ao mesmo tempo como figura que se destaca, já que – como era publicitado o filme – “Everybody comes to Rick’s”, ou seja, todos tentavam chamar para as suas causas pessoais Rick, tal como todos pretendiam que a América participasse mais activamente no conflito, esquecendo o neutralismo. Bogard – personalidade arquétipo do cidadão americano –, resulta assim como representante da América de 1942. Por um lado é uma figura atractiva, já que parece gozar de enorme liberdade de movimentos em todos os espaços do filme; é aquilo que todas as personagens desejam ser, ao ponto de ter toda a liberdade para ser arrogante, cínico, em tempo de guerra. Por outro lado, a sua arrogância parece ser o que mais nos atrai. A sua personagem entra mesmo em choque com todas as outras. Todos passam pela cidade de Casablanca em busca de algo mais, literalmente em trânsito rumo ao sonho americano, enquanto que Rick, por sua vez, foge é desse el-dorado americano. Exilado que está em Marrocos, procura apenas viver à margem de tudo o que o rodeia, mantendo-se propositadamente acima de todos os acontecimentos e dramas pessoais que o rodeiam. O heroísmo de Rick/Bogard confirma-se no final, quando abdica do seu amor em nome dos interesses colectivos. O seu bom carácter claro está, é confirmado com essa atitude activa de participação no conflito. Eventualmente, também os EUA entraram na guerra.

Mas, por que será que ainda hoje muito do que é feito em cinema parece respirar Casablanca? Por que será que ainda respondemos tão positivamente ao filme, principalmente se o compararmos com o grandioso Citizen Kane, estreado apenas um ano antes? Muitas respostas poderiam ser dadas, a verdade no entanto, é que todos gostamos – e continuaremos a gostar – da ilusão que só o cinema garante, aquela magia quase perfeita que as imagens nos transmitem, mesmo perante uma história de amor rebuscada.

Para a história, ficam os prémios. Oscar para Melhor Realizador, Melhor Filme e Melhor Argumento em 1944, considerado o 3º Maior filme de todos os tempos pelo American Film Institue (2007), e teve vários dos seus diálogos citados em diversas listas de “inesquecíveis”. Goste-se ou não de Casablanca, a verdade é que já faz parte da história do cinema.

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Critica: The Good, the Bad and The Ugly (1966)

April 3, 2008 · Leave a Comment

The Good, The Bad and The Ugly

O Bom, O Mau e o Vilão, de Sergio Leone

com Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee Van Cleef e Aldo Giuffré
Escrito por Sergio Leone e Luciano Vincenzoni

  • Ironia na Reconversão de um Género

A haver um grupo de realizadores que marcaram as décadas de 60 e 70 no cinema, o italiano Sergio Leone teria naturalmente de estar presente. No entanto, o seu estabelecimento num cânone de “grandes realizadores” não é consensual, principalmente junto da crítica anglo-saxónica, dada a sua postura descontraída na indústria. Construindo grande parte da sua carreira cinematográfica no famoso estúdio Cinecittà de Roma, com filmes mais comerciais do que artísticos, Leone não impressionava a crítica americana. O sucesso junto do público, no entanto, permitiu-lhe chegar a Hollywood, dando-lhe o estatuto ideal para que grandes projectos fossem possíveis. Quando em 1966 Leone apresenta este seu The Good, The Bad and The Ugly, as expectativas seriam naturalmente altas. Era o terceiro filme da chamada “trilogia dos dólares”: A Fistfull of Dollars (1964), For a Few Dollars More (1965) e The Good, The Bad and The Ugly (1966). Todos filmes violentos, protagonizados pelo inigualável Clint Eastwood e que alcançaram um enorme sucesso junto do público, inaugurando mesmo aquilo que viria a ser designado como “The Western Spaghetti” – Westerns feitos na Europa. Jogando aqui e ali com a tradição do Western clássico de John Huston, por exemplo, The Good, The Bad and The Ugly, vem, juntamente com os dois filmes que o precederam, ressuscitar o género, mas através de uma engenhosa transfiguração dos seus cânones estéticos e, sobretudo, narrativos.
Filme muito ritualistico, baseado numa história escrita pelo próprio Sergio Leone e Luciano Vincenzoni, tem como fio condutor a procura de uma fortuna em ouro por parte de três homens, consideravelmente diferentes, mas que, aos nossos olhos, nos são apresentados quase como figuras complementares. O filme começa mesmo por nos apresentar – literalmente – essas personagens. De um lado temos o inevitável Clint Eastwood e o seu cowboy sem nome, “Blondie” – reeditando assim o papel de “Good” da nossa história –, depois temos o seu quase Sancho quixotesco, Eli Wallach como Tuco, “the Ugly”, e, por fim, o “Bad”, ironicamente alcunhado de “Angel Eyes”, interpretado por Lee Van Cleef, actor que viria a ser tão popular em Itália que estaria presente em mais dez Western europeus. Estas serão as personagens centrais do filme, protagonizando algumas das cenas mais famosas da história do cinema e que intensificam a ironia permanente da realização e argumento de Leone. Para reforçar esse sentido de ironia quase caustica, o cenário deste confronto a três deixa de ser as paisagens idílicas de uma América pura e cheia de vida – aquela do Western clássico –, para passar a ser a guerra civil, num mundo que claramente está em mudança. A guerra civil americana (1861-1865), que divide o Sul e o Norte, surge como elemento secundário na vida daquelas personagens, já que a elas aquilo que realmente interessa é o enriquecimento. Leone, e os seus co-argumentistas, cria, assim, a maior ironia do filme – uma guerra sem sentido, em que o valor dos combatentes se mede pelo nível elevado de álcool no sangue. A carga satírica da película é ainda maior se consideramos que a América dos anos 1960 estava a braços com um dos momentos mais violentos da guerra que se viria a tornar uma das mais problemáticas da sua história, a guerra do Vietname (1959-1975), bem como com diversos tumultos sociais motivados sobretudo por questões raciais. Numa América violenta, os filmes de Leone são assim vistos como espelhos metafóricos da realidade. As personagens deste filme agora clássico, funcionando quase como caricaturas num mundo onde já começam a não fazer sentido, deambulam por entre espaços de civilização destruídos, procurando realizar objectivos individuais numa sociedade que se confronta com vista a um ideal de nação colectivo. O ouro procurado pelas três figuras, diria, do passado, torna-se mesmo aos nossos olhos ridículo. Aquela demanda, perante o palco de guerra por onde passam, vem, de certa forma, confrontar a América com o individualismo que está na sua génese. Aos olhos de um realizador estrangeiro, preocupado em fazer reflectir nos seus filmes a verdadeira América – se é que há uma verdade para ser exposta –, o individualismo americano começa a não fazer sentido quando outras questões divisórias estão em debate.

Juntando a esse subtexto irónico que pauta o ritmo do filme, temos também um retrato duro daquela realidade. “Tuco” e “Blondie”, à medida que vão caminhando rumo ao alcance do seu objectivo final, vão como que passeando pelo cenário de guerra. Assumindo claramente o papel de espectadores – nenhum deles adopta uma posição relativamente aos combatentes –, ambas as personagens percorrem todo aquele palco descontraidamente, ao ponto de, em determinado momento do filme, terem estado no interior de ambas as facções em disputa, sem que haja qualquer retaliação. Misturando claramente uma comédia de situação com um retrato mais duro, Leone consegue transmitir, e provocar, de forma engenhosa o sentimento mais profundo que se vai construindo ao longo da narrativa. As personagens de Clint Eastwood e Eli Wallach, ao contrário do claro “Bad”, “Angel Eyes”, vão progressivamente sendo tocadas pela realidade que os rodeia. Com isso, nós espectadores, vamos também conseguindo aproximarmo-nos de ambos, sem no entanto deixarmos de acreditar que aquilo que os move será sempre o ouro que os espera, a sobrevivência num mundo caótico portanto. A toada do filme é gerida com rigor por parte da realização, alternando entre momentos de quase contemplação e momentos dramaticamente mais fortes e intimistas, principalmente no que se refere à relação dúplice entre os dois companheiros de golpadas, “Tuco” e “Blondie”. De tal forma que, podemos ver ai reflectida a relação de amizade retorcida, entre George e Lennie, criada por John Steinbeck no seu livro de 1937, Of Mice and Men, em que vemos dois elementos que, sendo totalmente opostos, acabam por precisar da companhia que o outro representa para sobreviverem a um contexto adverso. Ao evocar o texto de Steinbeck, o filme de Leone assume-se assim como comentário à América que sempre admirou. A carga emocional do filme, essa, é construída sobretudo pelo jogo de câmara que mais notabilizou Sergio Leone. Leone faz em The Good […] aquilo que repetiu amiúde vezes em diversos filmes (“Trilogia dos dólares” claro está, mas também Once Upon a Time in the West; Once Upon a Time in America): alternância entre poderosos “close-up” – que lhe valeu o ser conhecido como o realizador que fazia “odes ao rosto humano” (Adrian Martin) – e grandiosas panorâmicas, combinação que dá indiscutivelmente uma maior intensidade às interpretações e ao filme em geral. Tudo isto, pautado pela magnífica – e já icónica – banda sonora de Ennio Morricone, acaba por trazer ao cinema em língua inglesa uma dimensão estética, estilística e narrativa únicas, muito influenciada pela escola Neo-Realista italiana que influenciou Sergio Leone.

Na verdade, este The Good […] é construído como uma estória quase mitológica, efeito reforçado por toda a sequência inicial. De um ritualismo quase mecânico, os primeiros momentos do filme como que apresentam todos os elementos ditos clássicos do Western, que serão transfigurados à medida que a narrativa vai avançando. Além de “Bom”, “Mau”, temos a subversão que representa o “Feio” ou, como ficou conhecido na tradução em Portugal, o “Vilão”. A juntar a isso, as primeiras imagens apresentadas pela câmara de Leone são quase que obsessivamente as dos olhos. O palco de confronto é muitas vezes mental, de observação pura, algo que se repete ao longo da acção. Repete-se também outro dos elementos fortes do filme: o silêncio. De facto, Leone gere eficazmente os momentos de silêncio, intercalados pela belíssima composição de Morricone, o que por si confere a toda a narrativa alguma força dramática. Outro aspecto que funciona claramente como instrumento transfigurador do Western clássico, visível logo na sequência inicial, é mesmo a desconstrução da noção de “Bem” e “Mal”. As velhas noções divisórias do Western puro de Hollywood são esbatidas perante a apresentação destas três personagens ambíguas, que vêem o crime como salvação. É certo que continua a haver uma hierarquia dentro daquilo que é aceitável e não, mas mesmo essa ordem natural é dúbia. “Angel Eyes”, por exemplo, é-nos apresentado seguramente como sendo o “Bad” da trama, mas a verdade é que acaba por ser uma personagem atractiva e que demonstra ter poder. Pelo contrário a personagem de Clint Eastwood, ironicamente, é o “Good”, não deixando porém de recorrer a todo o tipo de truques para levar a melhor sobre todos os outros. “Tuco”, por sua vez, revela-se de igual forma atractivo. Sendo-nos apresentado como o “Ugly” da narrativa, acaba por em momentos cruciais revelar ter bom coração, apesar de tudo. Com as três personagens somos, assim, lançados para o palco da vida real, onde nem tudo é declaradamente mau ou bom, algo que contribui em muito para o sucesso dos filmes de Leone. Esta subversão mais ou menos evidente tem, no entanto, o seu impacto maior em todos os episódios relacionados com a guerra civil que serve de cenário ao percurso das personagens. Naquela guerra, bons e maus estão misturados, as velhas noções do Oeste Americano são completamente destruídas, tal como destruída é a ponte que segura um dos principais focos de combate entre soldados de Norte e Sul, assim simbolizando uma certa viragem na narrativa.

Momento decisivo do filme será mesmo aquele em que “Tuco” e “Blondie” se vêem forçados a caminhar juntos para alcançarem o ouro que os espera. Ambos terão de permanecer em território controlado pelas tropas do Norte (Eles são do Sul), em pleno combate. Assim, o plano paralelo à guerra que seguem vai aos poucos ser remetido para segundo lugar quando confrontados pela realidade da crueldade, mesmo aos olhos de um cowboy, da guerra. A dimensão humana parece começar a ser mais importante do que o ouro. A carga emocional aumenta. Contudo, mais uma ilusão é criada. Não é afinal a dimensão humana que aumenta, é sim mais um exemplo da ironia e sátira que Leone empresta ao filme. O dinheiro estava temporariamente remetido para segundo lugar, mas apenas porque a necessidade de sobrevivência seria maior naquele instante. Mal se conseguem “libertar” da guerra, as suas agendas individuais continuam, toda a dimensão humana é esquecida e as personagens retomam a sua marcha.
No final, recentram-se – literalmente – os temas de qualquer Western que se preze. É mesmo recriado o duelo que todos associamos ao Western de Hollywood, compondo uma das imagens de marca da carreira de Sergio Leone em particular e do “Western Spaghetti” em geral. Fica, para a posteridade, a ironia final, a ironia da redenção última de “Tuco” e “Blondie”. As palavras de Clint Eastwood, essas, ficam também para sempre, compondo uma filosofia de vida sempre actual: “Neste mundo há dois tipos de pessoas meu amigo. Aquelas com armas carregadas e aquelas que cavam.”

Depois de tudo, a cavalgada final ao pôr-do-sol. John Huston no seu melhor.

Classificação: 5 estrelas em 5

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